Quando uma página em branco ocupa toda tua mente e teus sentimentos resumem-se à singularidade do vácuo. O grafite em
tuas mãos é ineficaz, frágil, débil, e sua vulnerabilidade torna-se ainda mais evidente perante a aquarela dos verdadeiros pintores. Artistas contemporâneos, pintores de opiniões absolutas, alimentam-se da vacância da alma, ordinários, impressionistas, pintam, respingam, rabiscam atônitos e completamente ausentes de empatia. Abusam do vermelho e dificilmente assumem sua preferência. O preto fica para o final, reservam-no enquanto o saguão ainda permanece
lotado; a festa parece interessante demais para seu encerramento repentino e os convidados aguardam ansiosamente pelo banquete. És a principal atração, colocam-te em evidência e o espetáculo parece não ter fim. Sua pele queima em contato com a tinta, uma dor angustiante te sufoca, tuas mãos não reagem. Não pode largar o lápis.
Depois vem o som.
Gargalham. Comemoram. Brindam. Festejam. Assinam. Pronto. Tomam domínio. Sorrateiramente, tu começa a apontar. Sequer dão-se ao trabalho de analisar a finalização do próprio feitio. Malfeitores. Teu corpo descama, arde, padece aos poucos.
Depois, o silêncio.
A fadiga vem à tona e torna-se evidente a insaciação dos desejos. E tu continua a apontar, impactando-os. A passividade foi rompida! Tornam-se inseguros. Aterrorizados por dentro. Ridicularizam-te. Não percebem que a obra já
está pronta, já não há mais tinta nas palavras.
Agora é a sua vez. Aproxima a superfície, agora pontiaguda, do grafite em algum espaço teu para rascunho e permanece imóvel. A apreensão invade seus determinados corpos, embora
tentem omiti-la. Desliza o grafite para o lado e o traço por ti marcado mal é visto. Aliviam-se e retomam o ritual de festividade.
Enfim, tua natureza torna-se explícita.
Repete o movimento com maior rigidez e intensidade. Perfura teu manto corporal com a extremidade aguda do grafite e mostra a verdadeira coloração do teu potencial.
Banha teu corpo de sangue e prova que teu vermelho é mais vivo, mais intenso, denso, agressivo, superior ao carbono utilizado. Aproveitas o palco e demonstras que teu destino é inteiramente teu. Tua própria matéria prima é capaz de sobrepor-se a qualquer
borrão alheio; teu corpo também é inteiramente teu e de mais ninguém. Tua amadora arte macabra assusta e o desespero toma conta do saguão.
Não há tempo para hesitar, prova que crueldade e moralidade podem possuir o mesmo valor semântico e coexistir no mesmo contexto.
Agora.
Eu, habitante do reino das trevas, imperador do submundo, Deus dos abissais, ajudarei-te a exterminar tal raça que tamanha mediocridade e audácia têm incomodado inclusive minha existência. Alia-se a mim e as luzes calar-se-ão, tornando o ambiente mais propício e embelezado para tua dança. Tira o sorriso do rosto e começa o espetáculo. O jogo inverteu-se.
Ergue teu perfurador e certifique-se de que ao final da valsa o único som emitido será o da tua respiração ofegante. Corta, rasga, dilacera, um por um.
Não te dispersa pelos gritos de desespero que fatalmente ecoarão. Cordeiros em pele de leão, covardes, tentarão escapar do trágico destino a todo custo. Silencia-os. Por toda a eternidade.
Quanto a ti, pouparei tua vida. Chamarei-te de Adão, semeador da nova raça, batizado com sangue, teu árduo trabalho apenas começou.
Deus tenha piedade de vós.